quarta-feira, 16 de julho de 2008


Fazia frio na cidade maravilhosa. Eu já havia andado tanto por aquelas ruas que minhas pernas me conduziam num movimento quase hipnótico, obedecendo as ordens de minha razão obstinada em conhecer cada detalhe daquele lugar. Parei quando, do outro lado da rua, avistei uma lojinha simpática que se auto-intitulava "baratos da ribeiro", um trocadilho com o nome da avenida. Gostei da sinceridade do nome, se sobressaia na confusão do desenvolvimento em que o bairro respirava. Ao cruzar a rua, encontrei alguns livros expostos fora da loja, todos (des)organizados em uma espécie de cesta que os comportava, trazendo o anúncio de promoção. Entrei.

A porta, levemente emperrada, rangeu à minha entrada. Havia um ar gostoso de nostalgia ali. O sebo era pequeno, mas tinha espaço suficiente para amparar milhares de livros e discos, todos organizados por gênero. De cara, fui até a sessão de jazz onde revirei tudo com um entusiasmo que crescia à medida que os nomes surgiam, um por um. O que mais me chamou a atenção quando vi este disco, perdido em meio a tantos outros foi, primeiramente, a arte estampada na capa do quarteto. Uma pintura colorida cuja forma dos círculos atribuí a olhos, numa inspiração lisérgica. Mal sabia o impacto que me causaria quando colocasse a agulha em contato com o vinil de 12 polegadas que o acompanhava.

As sessões de gravação do álbum ocorreram há quase meio século atrás, porém o jazz nunca me soou tão espirituoso e cheio de vida como nesta gravação; uma música cuja sua elegância conseguiu transpor as insensíveis barreiras do tempo, podendo ser classificada, assim como sugere o título do disco, de atemporal. (embora "Time Out" seja uma alusão às experimentações de diferentes marcações de tempo, consideradas inovadoras para o jazz até então).

Um som feito com alma, indispensável de se ouvir.

Um comentário:

Alpa Zen disse...

Esse aí, como diria o João gordo, é um Krássico.Bela aquisição, essa lojinha deve ser uma maravilha mesmo.
Se eu não me engano essa capa é de Miró.(Pelo menos a de Time Further Out é com certeza.)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dave_Brubeck